| O Carvnaval quem faz é você? por Luciano Matos |
| Thursday, 27 February 2014 03:57 |
|
Infelizmente, não foi ainda esse ano que a queda de braço contra estas forças – blocos, cordas, camarotes e grandes estrelas – pendeu para beneficiar o folião pipoca. Temos algumas novidades na festa, fruto principalmente do primeiro Carnaval de fato da nova gestão da Prefeitura, mas são ainda os grande nomes, aliados com o Conselho de Carnaval e sem um enfrentamento dos poderes públicos, que continuam ditando horários, ordem de desfile e a organização da festa. Há mudanças, no entanto, e entre elas as mais significativas, em se falando de programação e atrações, envolvem a diminuição do trajeto do circuito Osmar – Campo Grande, que agora não mais terá a volta pela rua Carlos Gomes, com blocos e trios se dispersando na Praça Castro Alves. Provavelmente com isso, a praça volte a ser melhor ocupada e disputada. Outra novidades é a consolidação do Afródromo, com desfile destinado aos blocos afro, ainda no circuito oficial, mas com mais espaço e horário mais justo. A grande novidade para o folião é a criação do projeto Furdunço, voltado para micro, pequenos e médio trios, com atrações de cunho mais artístico e em horários específicos. Com a criação do Furdunço e o entendimento entre Prefeitura e Secretaria de Cultura do Estado há um ganho de um lado , mas uma sensação de retrocesso em outro. O projeto Carnaval Pipoca do órgão estadual, implementado em 2008, a cada ano ganhava mais força e credibilidade, mesmo com trios elétricos em geral de baixa qualidade, horários ruins e desprestígio popular em muitos momentos. Não era uma luta simples entrar num modelo viciado mercadológica e artisticamente e implementar mudanças. O processo estava sendo gradual, com um entendimento de que nem todo mundo tem cacife para encarar público no Carnaval e que seria preciso fornecer tanto equipamentos mais adequados, quanto brigar por espaço e horários melhores. Uma briga difícil e que ia levar tempo, mas já mostrava avanços e ocupava espaços. Quem viu nomes como BaianaSystem no Carnaval passado sabe do que estou falando. A aposta este ano, no entanto, foi tirar as atrações do Carnaval Pipoca dos grandes e caros trios elétricos, colocando-as em trios menores. Musicalmente talvez seja um acerto, pois “domar” um trio não é fácil, seja pelo som muitas vezes precário, seja pela distância entre artistas e público. A qualidade de som agora tende a ser melhor, com menos estridência, com um aparato mais simples, menores custos, além de mais proximidade com o público. Sem dúvida uma grande vantagem são os custos que diminuem bastante para a Secretaria de Cultura, logo para o bolso do cidadão. Se antes, porém, com grandes e precários trios era como se os artistas disputassem a primeira divisão com um time inferior, agora está se jogando a série B. A atenção para trios menores pela mídia vai ser menor, o público atingido vai ser menor, o alcance vai ser menor, logo o processo de crescimento tem grandes chances de ser interrompido. Os grandes vão continuar grandes e ocupando os melhores espaços e horários. Continuará quem tem mais recursos e não necessariamente mais qualidade artística comandando a festa e se vendendo como se fosse o próprio Carnaval de Salvador. Os artistas mais novos, que têm surgido com preocupação artística e que tem mostrado novidades, ficarão submersos em meio a tantos trios gigantes e barulhentos e blocos enormes com milhares de associados.
Este ano, o projeto Furdunço tem sido tratado como a grande novidade e espaço para a diversidade. Segue , no entanto, a mesma lógica. Foram reunidos vários artistas em um único cortejo com horário definido: abrindo o Carnaval do Campo Grande na sexta-feira, dia 28, e fechando o circuito Barra-Ondina, na segunda-feira, dia 3. Não é mais uma opção no meio da festa, é uma programação específica em horários específicos e não tão concorridos. Agora não se joga apenas a série B, mas também não se terá transmissão e muito pouco do público geral vai ser atingido. Ou seja, a queda de braço continua pesando em cima de quem tem mostrado alguma novidade e criatividade dentro da música baiana. Evidente, que esses péssimos horários oferecidos aos trios independentes já é a regra há alguns anos. Não é novidade. Alguns ainda conseguem sair com mais dignidade, mas são exceção. Importante lembrar também, que além dos trios da Secult e do Furdunço, há ainda os trios independentes da Bahiatursa e alguns outros, que oferecem mais algumas opções par ao folião pipoca. Assim mesmo, ainda é muito pouco diante do que é a grandeza do Carnaval de Salvador e dos imensos blocos que ocupam o espaço público, como se fossem loteamentos particulares. Assim, mesmo o Carnaval de Salvador ainda guarda momentos, atrações, artistas, shows, blocos e trios elétricos imperdíveis, desde alguns mais tradicionais, como a saída do Ilê Aiyê, a passagem do Filhos de Gandhy, a tranquilidade de pular como pipoca atrás dos trios independentes de Armandinho, Dodô & Osmar, Moraes Moreira e Gerônimo, a Mudança do Garcia e mesmo o encontro de trios. Até as iniciativas mais novas, o desfile do Cortejo Afro, os trios de samba no Campo Grande, o próprio cortejo dos microtrios no Furdunço, as festas e shows nas praças e largos do Pelourinho, o Retrofolia, e a maior novidade da festa dos últimos anos, o desfile do Baiana System. Para muitos Carnaval em Salvador é apenas a desgastada Axé Music e seus artistas sem muito conteúdo, mas quem está ligado nas novidades na cidade sabe onde encontrar muito além do óbvio e curtir um dos Carnavais ainda mais interessantes do planeta. Artigo publicado originalmente em http://www.nemo.com.br/elcabong/2014/02/o-carnaval-quem-e-que-faz/ |
|
Agenda |
Aldeia Nagô |
Capa |