Sou vítima de violência por fake news, mas discordo da decisão do Supremo. Por Leonardo Sakamoto |
Cidadania | |||
Sunday, 26 July 2020 00:42 | |||
De tão bizarra, levou o Ministério Público Federal, o Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos, em Genebra, entre outras instituições, a monitorarem minha situação de perto. Fiz esse brevíssimo resumo não para despertar a compaixão de ninguém - tenham compaixão de si mesmos por morarem em um lugar em que o presidente se omitiu em uma pandemia mortal, empurrando um remédio perigoso e que não funciona para forçar todos a voltarem à normalidade. Presidente que é um dos principais propagadores de desinformação e de ódio do país. Há poucas pessoas que seriam mais interessadas em ver contas de expoentes do naco violento da extrema-direita serem derrubadas, como ocorreu nesta sexta (24) por ordem do Supremo Tribunal Federal. Alguns dos que foram suspensos, inclusive, já promoveram ódio e espalham mentiras contra mim. E sofri isso na pele. Repetidas vezes. Mas a decisão do ministro Alexandre de Moraes de pedir o bloqueio da forma com que foi feita abre um precedente ruim. Com consequências de longo prazo. A questão é que, em uma democracia, não basta garantir a proteção da dignidade dos cidadãos, mas como isso é feito. O Estado não pode combater a estupidez e a criminalidade de forma arbitrária. Ressalvadas as devidas proporções, é a mesma justificativa de alguns governadores que, questionados sobre o aumento da letalidade policial, afirmam que isso reduziu o número geral de homicídios. "Determino o bloqueio de contas em redes sociais, tais como Facebook, Twitter e Instagram, dos investigados, necessário para a interrupção dos discursos com conteúdo de ódio, subversão da ordem e incentivo à quebra da normalidade institucional e democrática", afirma decisão de Moraes. Isso é grave. Contas de pessoas que comprovadamente existem (não estou falando de perfis falsos e robôs) não deveriam ser removidas com a justificativa de que, assim, irão parar de propagar determinados conteúdos, pois isso é impedir que alguém se manifeste. Se a liberdade de expressão não é absoluta, também não admite censura prévia. As pessoas têm o direito de dizer o que desejam e, caso cometam calúnia, injúria ou difamação contra terceiros ou ameacem a República, serem punidas com o rigor da lei depois. Não podemos estabelecer uma sociedade em que as pessoas são punidas antes de cometerem os crimes. Parece que o STF tenta, dessa forma, compensar a incompetência do Estado em investigar, com celeridade, e punir quem comete crimes de origem digital. Falo por experiência própria, aguardando, até hoje, respostas em alguns casos. Não estou defendendo espalhadores de ódio e de mentiras. Eles devem responder à Justiça, da maneira correta, pagando pelo que disseram ou fizeram, com o rigor da lei. Defendo, por outro lado, que o STF, trincheira democrática contra o comportamento autoritário do presidente, aja de acordo com a Constituição. Não por uma necessidade de seguir princípios, mas porque - mais cedo ou mais tarde - a possibilidade aberta para o esgarçamento de direitos será usada contra qualquer um simplesmente porque emitiu a "opinião errada". Porque o exemplo do STF será seguido por magistrados de todo o país, alguns dos quais com vontade de usar politicamente suas togas. Se o comportamento reprovável do presidente da República, que não tem pudores em passar por cima da lei, é copiado pelo "guarda da esquina", o mesmo efeito pode se reproduzir no Judiciário.
E, aí, será tarde para arrependimentos. Artigo publicado originalmente em
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